Na Virada



imagem do livro Pirulito e Outras Delícias

Erraram como todos erram e ninguém deveria errar tanto, meu Deus! Transgrediram em tudo, carregaram nas cores. Acusações choveu de ambos os lados. Nenhuma palavra mais amena do que “covarde” “paranóica” “traidor”. Isso porque estou sendo boazinha e não colocarei as palavras que não costumam constar em dicionários… Um festival de grosseria! Ela, invadiu suas redes sociais, roubou senhas, ameaçou ex namoradas, espalhou inverdades… Tudo para que ele morresse logo em seu coração.
Em represália ele lançou mão de uma arma mortal, cruel, desumana. Espanto-me só em imaginar como pôde ter coragem!
Ele a chamou de gorda. Precisa mais? Acredite, minha leitora: Ele a chamou de gorda! Ta certo que foi depois do tufão que varreu sua vida, causado por ela, enfim, represália mesmo… Mas que vingança torpe! Dá para imaginar um homem lançar mão de tamanha crueldade? G O R D A.
Silêncio total entre os dois. Um silêncio espantoso… Nada. Como se os dois não existissem mais, como se não habitassem mais o mesmo mundo…
Ela cortou os lindos cabelos que ele elogiava todos os dias, rasgou todas as roupas que ele gostava. Bem… Nem todas porque afinal algumas custaram os olhos da cara e afinal ela não estava aí para rasgar dinheiro por causa de um idiota.
Ele encheu o apartamento de amigos, consumiu em um final de semana todo o estoque de cerveja que habitualmente consumiria em um ano. Vestiu novamente a mesma cueca, aliás, vestiu não, nem tirou porque banho que é bom…
Acordou com ressaca moral e física, fedendo feito um bode, tropeçou em um cara que dormia no chão da sala e constatou horrorizado que sequer o conhecia. Levou um dia para colocar tudo em ordem, afinal não iria sucumbir por causa daquela “gorda”.
Tomou banho, jogou a cueca no lixo, perfumou-se, saiu no mesmo momento em que ela também saia. Linda, gostosa, mulherão de pernas torneadas, uma perdição. A bem da verdade os dois são bonitos. Formavam um belo casal…
O Shopping está lotado, é véspera de ano novo, chove no Rio de Janeiro e sem praia, haja shopping para andar…
Ela para diante de uma vitrine, olhando sem ver as roupas brancas expostas… Nem pensou em como passará esta noite, onde irá, que roupa usará. Tudo tão sem sentido, sem razão de ser… Sem ele.
Uma lágrima furtiva faz brilhar ainda mais seus lindos olhos verdes, discretamente ela a enxuga.
Ele caminha sem destino, não pensa muito porque a cabeça ainda dói… A vitrine o atrai. Quantas vezes freqüentaram aquela loja, juntos? Perdeu a conta.
Lembrou-se que hoje é o último dia do ano. Deveria comprar uma camisa nova, para dar sorte na passagem. Passagem… Para onde? Tudo tão sem sentido… Sem ela…
Esbarram-se. Param de frente um para o outro. Se olham, se cheiram, se perdem um no outro. Olhos nos olhos. Peito no peito, coxas com coxas, boca na boca…
Ah… Passaram a virada de ano sem roupa nova… Totalmente nus.
Regina Racco
Anúncios